O ininterrupto processo de desterritorialização do desejo (termo de Deleuze e Guattari, utilizado por Suely Rolnik) , provocado pelo manancial de mudanças a que estamos todo o tempo expostos na atualidade, age sobre nós deixando-nos urgentes por descobrir novos espaços de possibilidade de prazer.

No entanto a maioria dos seres humanos se enraiza em um só território em cada campo de sua vida: afetivo, profissional, espiritual…e, via de regra não se deixa vivenciar os sentidos apontados pela própria vontade.

É função intrínseca da manifestação artística pescar as pessoas de uma realidade normativa, de um território de segurança máxima e lança-las, ou ao menos apresentá-las a uma deriva, um espaço paralelo onde é possível recriar realidades.

A arte penetra furtivamente em quem a testemunha. Enquanto ainda não se experimentou o ímpeto de se entregar ao devir do dia a dia, ela funciona como uma permissividade mais segura. É o topos do possível. Se tem o título de arte, tem também o caráter do permitido, por mais fora do senso comum que possa parecer.

O que muitas vezes não é percebido de imediato, é que de fato vamos tendo nossos conceitos, preconceitos, hábitos, dogmas e mini-certezas (Cazuza) vasculhados, afrontados e até destruídos em algumas situações de presença em teatros, galerias e espaços culturais em geral. E que pequenos questionamentos, dúvidas, e alguns sustos vão fomentando transformações reais na personalidade e proporcionando um relaxamento da rigidez com que fixamos territórios.

Então artistas são, em parte, responsáveis pela inserção de intensidades em vidas cotidianas. Então Educação Estética da Comunidade é Educação Sensível da Comunidade. Visa despertar sentidos dormentes.

A arte da performance é, por excelência, uma linguagem síntese. Por sua origem promíscua, vinda das artes cênicas e plásticas, e tendo conquistado a música e as artes visuais em geral, se alimenta de uma vasta e variada gama de qualidades, o que lhe faz, no mínimo, uma manifestação artística diferenciada. Some-se a isso o fato de ser dentre as outras (com excessão da vídeo-arte e da arte eletrônica que estão inteiramente vinculadas à presença de tecnologias específicas) uma expressão própria de nosso tempo.

Nesse sentido a proposta do GPCI (Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos) é explorar as potencialidades dessa linguagem e levar a capacidade de expressão dinâmica do performer a extrapolar o discurso naturalista e a narrativa linear.

É necessário que o espectador vislumbre e vivencie uma nova forma de recepção do conteúdo da obra. A proposta é levá-lo a introjetar com igual intensidade as impressões que ele recebe do que lhe é apresentado oralmente, visualmente e sensorialmente pelo corpo do artista.

Para nós essa proposta se dá na busca de uma linguagem onde o artista possa expelir seus vírus pessoais, suas idiossincrasias, contagiando e sendo contagiado pelos mistérios das carnes que o envolvem, num tempo/espaço inigualável.

A performance tem uma preocupação sinestésica com o público: Quer chegar com o gesto, gosto, forma, cheiro, temperatura, secreções, audição, pele. A intenção é chegar ao espectador, a priori, por meio de recursos vertiginosos, capazes de sensibilizar os sentidos mais estéreis. o pensamento articulado ganha espaço depois da experiência sensível.

Na procura de tais conceitos e conteúdos nos deparamos com a necessidade de entrar em contato com a subversão e a perversão. Trazendo à luz o que está "sub", em baixo, oculto, em potencial, e o que está "per", ao lado, à margem, através, busca-se em si mesmo outras versões para o fazer artístico que não a normativa. A vontade de versar por outros caminhos, de desbanalizar e valorizar o verso. Se a arte é fruto e motor de transformações, ao mesmo tempo em que não é de fato, posto que é arte, então arte é metáfora de metamorfose. Criando, por relação de identificação, a idéia de mudança, impulsiona quem se envolve com ela, seja como artista ou espectador, a uma mudança real.

Para que o performer desenvolva uma disponibilidade corporal que o leve a criar o gesto organicamente, e para que, ao fazê-lo de novo, saiba recorrer à força originária e não à forma que o gesto tomou, é preciso que a ação guarde elementos de imprevisibilidade capazes de gerar produção de energia. A força usufruída pelo artista será captada nos elementos surpresa do tempo/espaço público/privado em que se encontra. O espectador passa de uma passividade para assumir uma postura ativa, tornando-se participador.

Nesse sentido temos trabalhado com todos os membros do GPCI, estimulando um livre trânsito entre as linguagens envolvidas na pesquisa. Assim, desde 1995, todo o grupo vem experimentando e desenvolvendo o treinamento psíco-físico, proposto, originalmente, pelos membros oriundos das artes cênicas. Este visa reconhecer e incentivar as potencialidades criativas do artista, no exercício da performance. Performar é entendido aqui, como a habilidade do artista de adaptar-se espontânea e criativamente a um estímulo dado; capacidade de compôr uma expressão cênica a partir de uma idéia, ou desejo que o habite. Tal experiência vem gerando frutos híbridos, que podem ser provados em nossos vídeos, performances, exposições e espetáculos.

 

 

Por Alice Stefania